quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Porque é que tudo se desmoronou?

Não foi só a borboleta que poisou e fez o ódio espalhar-se por silêncios e violências acumuladas. Há muito que tínhamos vindo a construir precipícios e tal como a jangada de pedra eu estava prestes a navegar sem rumo.

Ele é muito maior do que eu e eu não sei porquê.
Ele era ciumento, dependente, possessivo, não confiava e o medo de me perder afastou-nos ainda mais. 
Houve uma altura que nos destruímos e não sobrou nada.

Não sei porque fui para França, posso dizer que foi para trabalhar e ganhar dinheiro mas devo ter gasto mais do que o que recebi.
Posso dizer que foi para esquecer uma paixão, mas era só uma ilusão.
Posso dizer que era para pôr os pés na terra mas o peso da tristeza enterrou-me primeiro.
Posso dizer que era para aprender uma língua diferente mas não me lembro de ter tido uma conversa interessante em francês.

Posso dizer muita coisa e não foi nada disso e foi tudo também.

Mas foi quando o Mika foi buscar cervejas que a ficha me caiu e foi graças ao seu cão que eu voltei para Portugal. 

Por isso quando voltei fui buscar um cão a uma quinta.
Posso dizer que fui buscar um cão para me dar chão.
Posso dizer que foi para me lembrar do que é importante na vida
ou para me lembrar do meu egoísmo. 

Como me sinto culpada de não o tratar melhor e dar-lhe tempo, como ele me perdoa todos os dias e eu não.

Como os outros me perdoam pelos meus erros e eu não.

Porque é que eu não mudo
Talvez a partir de hoje mude
Talvez a guerra na Síria acabe
Talvez a Turquia seja livre
Talvez o sofrimento acabe
Talvez as mortes de ódio acabem
Os preconceitos, a xenofobia, o racismo, o patriarcado, a fome, a inconsciência

talvez hoje façamos paz, mas eu não acredito nisso. 

Hoje eu vou-me irritar hoje eu vou gritar e bater, hoje eu vou 
hoje eu não sei como vai ser e preciso de abraços e carinho e o meu filho também

Estou com medo de perder quem amo. Tal como outros tiveram medo de me perder.


e há tanta gente perdida e há tanta gente a achar-se e a achar os outros
e há a entreajuda, há generosidade e bondade e cuidado há isso tudo


Consigo sentir o medo das minhas acções sou assustadora para mim. O monstro a vir mas vem com uma fralda a fazer de boneca e uma chucha pendurada ao peito

sou culpada e não mereço perdão
Não há pior prisão que a consciência do nosso mal
Pareço ainda uma criança a pedir colo à minha mama.


posso dizer muita coisa e não ser nada disso



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