sábado, 10 de dezembro de 2016

Dúvida

Eu parti, como se fosses tu que me abandonasses. (Al Berto)
Agora arrependo-me e tento desesperadamente voltar para trás e não consigo.
Não consigo voltar ao ponto em que estávamos.
Quando estávamos era bom, agora não existe.

E que ingrata fui.

Mereço o vazio,
mas fico senil.

E agora é tarde.
Porque penso
o pior é pensar.

Não é bom esta obsessão,
não pode ser.
Trai-te.

Era para ver se vinhas atrás
era para ver se eras gigante
era...
sou pequenina.

Mas não era nada disso.

Eu queria ser feliz
e sou
acredita
foi o melhor.



Então porque não esqueço


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A história do Luís


I
(Luís:)

Sou gay.
Esta é a minha letra.
Gosto de homens.
Nunca estive com um, mas nem olho para mulheres.
Fazem-se a mim, mas rejeito-as.
Gosto de pilas.
Toda a gente sabe, mas ninguém diz coisa nenhuma.
Ando nas ruas e reconheço os olhares de outros gays. Mas escondo-me.
Viro a cara. Baixo os olhos. Fico vermelho.
A pele branca e a ligação com a vergonha dos pensamentos denunciam-me.
Não quero dar hipótese. Não me sinto preparado. Não quero assumir. É mais fácil assim. Quero continuar a minha vida normal.
Duvido se serei, mas sim sou.
Hoje à tarde fui a um bar gay.
Entrei e pus-me sozinho numa mesa.
Estava triste por estar sozinho e ninguém se sentou ao pé de mim. Ainda mais triste fiquei. Voltei para casa.
Anoiteceu e chorei.
Não quero ser gay. Acordo de manhã e choro mais um tempo. Tenho um mar dentro de mim. Olho-me ao espelho, tenho borbulhas na cara. Sou feio.
Visto-me e vou para a faculdade.
Uma depressão pegada. As aulas, os professores, que falência. Os meus colegas que aberração.
Volto para casa e aqueço o comer. Não tenho fome, nem paciência.
Entretenho-me no computador a ver passar o tempo. Vejo pornografia. Vou para a cama e venho-me. 
Adormeço a pensar em pilas.

II

Eu gostava era de escrever sobre guerras. Ir para a Síria e escrever sobre as mortes de lá.
A morte de lá não é como a de cá. A morte nas guerras é gloriosa. Está carregada de sentido. Morre-se porque se está em guerra. Esse é o sentido.
Aqui morre-se porque não se tem mais nada para fazer.
É preguiça. Lá é luta.
Aqui é deixar andar, até que um dia acabou.

Vivo num prédio onde não se passa nada. Meio vazio e mais podre por dentro do que por fora. Já não mora cá ninguém a não ser um velhote que também vive sozinho. Mal o vejo, mal dou por ele.
Vejo de vez em quando o filho mais velho que o vem visitar e tratar dos seus problemas mais resolúveis. Os outros já são tarde demais para se pegarem neles. Já ninguém se importa. Muito menos o velho. Já se esqueceu de lutar e vai morrer em breve.

III

Dia zero

Hoje conheci um rapaz na livraria. Estávamos na mesma secção, fotojornalismo. Estava a ler um livro, quando ele se debruçou e quis ver a capa. Sem mais nem menos olhei-o com reprovação.
Pediu-me desculpa.
 - Vais comprar esse livro?
 - Não sei, talvez, porquê?
 - É que é o único exemplar e se não o comprares eu levo-o.
Não gostei dele. Que absurdo. Não respondi nada e ele baixou os olhos e afastou-se.
Fui às compras e quando passei no café, ele estava sentado a ler o livro. Sempre o tinha comprado.
Chamou-me e perguntou se me queria sentar.
Pago-te um café, é o mínimo. Desculpa há pouco ter sido inconveniente, mas é que estava à procura deste livro há muito tempo e fui incorreto. Peço desculpa.
 - Não faz mal. Também não tenho dinheiro para o comprar. Não tem importância, a sério.
Começamos a falar sobre fotojornalismo. Ele já estudava há uns anos e parecia muito entendido. Trocámos números de telemóvel e ficámos de nos encontrar numa exposição.
Nunca mais fui às aulas na faculdade, nem me despedi, simplesmente deixei de ir e andava mais ocupado.
Nem me lembrava que não tinha perspetivas.

IV

Fui-me encontrando com o Duarte que me ensinava coisas que eu não sabia e outras que já sabia. Ele vivia com a avó que lhe fazia o comer. Não tinha muitas preocupações na sua vida.

O Duarte era feliz ao contrário de mim. Mas eu estava a aprender rápido.
Estudava-o, via como se comportava, como se dava, como comunicava.
Era livre e espontâneo e era gay.
Não devia ter tido muitos namorados.
A sua sexualidade era melosa. Não era vulgar, mas certeira. Era bonito e não tinha borbulhas como eu.
Vestia umas camisas azuis, brancas ou rosa claro, com camisolas de nylon e lã, calças justas à frente e atrás. Era tão sexy.
O cabelo era preto, curto com corte da moda. Tinha os olhos castanhos e pestanas compridas, feições retas e simétricas e uns lábios nem gordos nem magros. Os seus dedos eram compridos e finos com pele de bebé.

V

Uns dias mais à frente saímos à noite e fomos a um bar. Ele sabia da minha timidez e da minha virgindade. Confessei-lhe nessa noite.
Perguntou-me se podia ficar na minha casa, pois já era muito tarde e não queria acordar a avó. Disse-lhe que sim.
Fomos até à minha casa, quando cheguei pousei a chave em cima da mesa, ele pousou a mão em cima da minha.
Olhou-me nos olhos e sorriu.
Beijámo-nos.
Estávamos com fome e comemo-nos.
Disse que gostou de mim assim que me viu e eu disse-lhe que eu não.
Rimo-nos.
Beijámo-nos e sorrimos.
De manhã teve de ir trabalhar e depois de comer foi-se embora.
Fui às compras e comprei comida saudável.
Não tinha comido assim tão bem desde que o meu pai morreu.
Hoje não tinha pensado nele até olhar para a foto que está na sala em cima do sofá. Sorri para ele. Ele tinha visto tudo e não dissera nada.
Saí outra vez e fui procurar trabalho.
Entrei na loja de discos que tinha um anúncio na porta. Falei com o gerente e ele disse que o lugar era meu. Começava no dia seguinte.
Tantos anos a ouvir musica com o meu pai tinham dado frutos num único segundo.
Afinal já vislumbrava uma ténue luz.
Num dia ruína noutro glória.
Os dias são descompostos.
Somos nós que fazemos o que queremos com eles, mas eles não têm continuidade, como os momentos, as horas, o tempo é descontínuo.
Mas eu gostava desta história, destes dias. Olhando para trás estava feliz.
Mandei mensagem ao Duarte a dizer que estava feliz por o ter conhecido.
Ele respondeu de volta.
Eu também.
Mandei um sorriso.
Ele de volta também.
Sorri para a frente. Um sorriso interior vale por mil.

VI

O Luís já não ia ser infeliz por muito tempo e o Duarte já não o era.
Num encontro incalculado as vidas mudam. Apenas acontece, um dia sem aviso.
Quanto tempo iria durar o amor?
Nada importa.
Porquê a obsessão com o tempo, a performance, a glorificação?
Tão simples, um dia, uma noite e é tudo o que se precisa. Quase nada.
Um encontro continuado, é isso o amor. Encontros continuados no tempo.
Para a descontinuidade e ela é adiada.

VII

(Afastamento dos dois após discussão sobre limites. Não se vêem há mais de um mês)

O Luís sai à noite. Foi à procura do Duarte, mas sem saber.
A meio da noite esqueceu-se dele.
Foi à procura da magia perdida nos sítios onde costumava ir com ele. Não a encontrou.
No fim da noite lembrou-se tanto dele que foi insuportável e foi a um bar de engate. Trocou olhares. Acabou por começar a falar com um homem na casa dos 40. Sabido e vivido, foi com ele para casa e fizeram sexo.
Dormiu no sofá e de manhã despediu-se até nunca mais.
Não foi bom e só fez com que soubesse o que não queria.

VIII

Luís está de férias, pensa no Duarte e o Duarte pensa nele. Ele não sabe disso. Ninguém diz a ninguém. Mas pensam. Muito. A toda a hora. Precisam de pensar na vida sozinhos por agora. Por agora é disso que precisam, chegar a conclusões sozinhos.
O Luís anda triste. Tem saudades do Duarte.
Amanhã vai a um concerto e sabe que o Duarte vai lá estar. Talvez por isso adie o que tem para lhe dizer. Talvez até não diga nada. Não quer estragar os preciosos segundos do encontro.
Não o quer incomodar. Tem medo de lhe mandar uma mensagem e que não responda. A última vez disseram coisas que não queriam e agora precisam de um tempo até elas se dissiparem.
No dia do concerto arranja-se toma banho, põe perfume. Quer estar bem para o encontro.
Encontram-se:
- Olá! Como estás? Tudo bem.
Ninguém tem coragem de dizer nada (talvez não haja nada para dizer)
Despedem-se e nada.
Quando chega à curva dá um murro no muro. Foi a falta de coragem. O medo de ser abandonado. Prefere estar sozinho. Não sabe como quebrar silêncios. Nunca foi a bom a criar atmosferas onde os reencontros acontecem. Não sabia se estaria a forçar.
Passam dias. Amor silencioso.
A depressão voltou.
Já não se importa com o Duarte. Apesar de pensar nele. O medo do incerto paralisa-o.

IX

Há um dia que quer ser feliz, diz para si. Pega no telefone e telefona ao Duarte. Pergunta-lhe se ele quer ir lá a casa jantar. O Duarte diz que sim. Às 21h chega. Luís abre a porta e dá-lhe um beijo na boca. O gelo quebra-se, dão as mãos e vão para a sala. Tinham muitas saudades um do outro.
Beijam-se e fodem. Não dizem uma palavra.
De manhã, na cama, debaixo dos lençóis brancos conversam muito.
Calmamente
conversam muito
ouvem-se
falam do futuro
planos
acertam tempos
chegam a concordâncias
discutem
o salto para a frente parece irreal, mas agora as possibilidades ganham forma, já são palpáveis, estão a construir o futuro e estão felizes.

Quando Luís sai à rua, vira para a esquerda em vez da sempre direita.
Cheira, vê, descobre uma rua nova, não está muito certo da escolha, mas sabe que o novo sabe bem e encontra todas as possibilidades.