I
(Luís:)
Sou
gay.
Esta
é a minha letra.
Gosto
de homens.
Nunca
estive com um, mas nem olho para mulheres.
Fazem-se
a mim, mas rejeito-as.
Gosto
de pilas.
Toda
a gente sabe, mas ninguém diz coisa nenhuma.
Ando
nas ruas e reconheço os olhares de outros gays. Mas escondo-me.
Viro
a cara. Baixo os olhos. Fico vermelho.
A
pele branca e a ligação com a vergonha dos pensamentos denunciam-me.
Não
quero dar hipótese. Não me sinto preparado. Não quero assumir. É mais fácil
assim. Quero continuar a minha vida normal.
Duvido
se serei, mas sim sou.
Hoje
à tarde fui a um bar gay.
Entrei
e pus-me sozinho numa mesa.
Estava
triste por estar sozinho e ninguém se sentou ao pé de mim. Ainda mais triste fiquei.
Voltei para casa.
Anoiteceu
e chorei.
Não
quero ser gay. Acordo de manhã e choro mais um tempo. Tenho um mar dentro de
mim. Olho-me ao espelho, tenho borbulhas na cara. Sou feio.
Visto-me
e vou para a faculdade.
Uma
depressão pegada. As aulas, os professores, que falência. Os meus colegas que
aberração.
Volto
para casa e aqueço o comer. Não tenho fome, nem paciência.
Entretenho-me
no computador a ver passar o tempo. Vejo pornografia. Vou para a cama e venho-me.
Adormeço a pensar em pilas.
II
Eu
gostava era de escrever sobre guerras. Ir para a Síria e escrever sobre as
mortes de lá.
A
morte de lá não é como a de cá. A morte nas guerras é gloriosa. Está carregada
de sentido. Morre-se porque se está em guerra. Esse é o sentido.
Aqui
morre-se porque não se tem mais nada para fazer.
É
preguiça. Lá é luta.
Aqui
é deixar andar, até que um dia acabou.
Vivo
num prédio onde não se passa nada. Meio vazio e mais podre por dentro do que
por fora. Já não mora cá ninguém a não ser um velhote que também vive sozinho.
Mal o vejo, mal dou por ele.
Vejo
de vez em quando o filho mais velho que o vem visitar e tratar dos seus
problemas mais resolúveis. Os outros já são tarde demais para se pegarem neles.
Já ninguém se importa. Muito menos o velho. Já se esqueceu de lutar e vai
morrer em breve.
III
Dia
zero
Hoje
conheci um rapaz na livraria. Estávamos na mesma secção, fotojornalismo. Estava
a ler um livro, quando ele se debruçou e quis ver a capa. Sem mais nem menos
olhei-o com reprovação.
Pediu-me
desculpa.
- Vais comprar esse livro?
- Não sei, talvez, porquê?
- É que é o único exemplar e se não o comprares eu levo-o.
Não
gostei dele. Que absurdo. Não respondi nada e ele baixou os olhos e afastou-se.
Fui
às compras e quando passei no café, ele estava sentado a ler o livro. Sempre o
tinha comprado.
Chamou-me
e perguntou se me queria sentar.
- Pago-te
um café, é o mínimo. Desculpa há pouco ter sido inconveniente, mas é que estava
à procura deste livro há muito tempo e fui incorreto. Peço desculpa.
- Não faz mal. Também não tenho dinheiro para o comprar. Não tem importância,
a sério.
Começamos a falar sobre fotojornalismo. Ele já estudava
há uns anos e parecia muito entendido. Trocámos números de telemóvel e ficámos
de nos encontrar numa exposição.
Nunca
mais fui às aulas na faculdade, nem me despedi, simplesmente deixei de ir e
andava mais ocupado.
Nem
me lembrava que não tinha perspetivas.
IV
Fui-me
encontrando com o Duarte que me ensinava coisas que eu não sabia e outras que
já sabia. Ele vivia com a avó que lhe fazia o comer. Não tinha muitas
preocupações na sua vida.
O
Duarte era feliz ao contrário de mim. Mas eu estava a aprender rápido.
Estudava-o,
via como se comportava, como se dava, como comunicava.
Era
livre e espontâneo e era gay.
Não
devia ter tido muitos namorados.
A
sua sexualidade era melosa. Não era vulgar, mas certeira. Era bonito e não
tinha borbulhas como eu.
Vestia
umas camisas azuis, brancas ou rosa claro, com camisolas de nylon e lã, calças
justas à frente e atrás. Era tão sexy.
O
cabelo era preto, curto com corte da moda. Tinha os olhos castanhos e pestanas
compridas, feições retas e simétricas e uns lábios nem gordos nem magros. Os
seus dedos eram compridos e finos com pele de bebé.
V
Uns
dias mais à frente saímos à noite e fomos a um bar. Ele sabia da minha timidez
e da minha virgindade. Confessei-lhe nessa noite.
Perguntou-me
se podia ficar na minha casa, pois já era muito tarde e não queria acordar a
avó. Disse-lhe que sim.
Fomos
até à minha casa, quando cheguei pousei a chave em cima da mesa, ele pousou a
mão em cima da minha.
Olhou-me
nos olhos e sorriu.
Beijámo-nos.
Estávamos
com fome e comemo-nos.
Disse
que gostou de mim assim que me viu e eu disse-lhe que eu não.
Rimo-nos.
Beijámo-nos
e sorrimos.
De
manhã teve de ir trabalhar e depois de comer foi-se embora.
Fui
às compras e comprei comida saudável.
Não
tinha comido assim tão bem desde que o meu pai morreu.
Hoje
não tinha pensado nele até olhar para a foto que está na sala em cima do sofá.
Sorri para ele. Ele tinha visto tudo e não dissera nada.
Saí
outra vez e fui procurar trabalho.
Entrei
na loja de discos que tinha um anúncio na porta. Falei com o gerente e ele
disse que o lugar era meu. Começava no dia seguinte.
Tantos
anos a ouvir musica com o meu pai tinham dado frutos num único segundo.
Afinal
já vislumbrava uma ténue luz.
Num
dia ruína noutro glória.
Os
dias são descompostos.
Somos
nós que fazemos o que queremos com eles, mas eles não têm continuidade, como os
momentos, as horas, o tempo é descontínuo.
Mas
eu gostava desta história, destes dias. Olhando para trás estava feliz.
Mandei
mensagem ao Duarte a dizer que estava feliz por o ter conhecido.
Ele
respondeu de volta.
Eu
também.
Mandei
um sorriso.
Ele
de volta também.
Sorri
para a frente. Um sorriso interior vale por mil.
VI
O
Luís já não ia ser infeliz por muito tempo e o Duarte já não o era.
Num
encontro incalculado as vidas mudam. Apenas acontece, um dia sem aviso.
Quanto
tempo iria durar o amor?
Nada
importa.
Porquê
a obsessão com o tempo, a performance, a glorificação?
Tão
simples, um dia, uma noite e é tudo o que se precisa. Quase nada.
Um
encontro continuado, é isso o amor. Encontros continuados no tempo.
Para
a descontinuidade e ela é adiada.
VII
(Afastamento
dos dois após discussão sobre limites. Não se vêem há mais de um mês)
O
Luís sai à noite. Foi à procura do Duarte, mas sem saber.
A
meio da noite esqueceu-se dele.
Foi
à procura da magia perdida nos sítios onde costumava ir com ele. Não a
encontrou.
No
fim da noite lembrou-se tanto dele que foi insuportável e foi a um bar de
engate. Trocou olhares. Acabou por começar a falar com um homem na casa dos 40.
Sabido e vivido, foi com ele para casa e fizeram sexo.
Dormiu
no sofá e de manhã despediu-se até nunca mais.
Não
foi bom e só fez com que soubesse o que não queria.
VIII
Luís
está de férias, pensa no Duarte e o Duarte pensa nele. Ele não sabe disso. Ninguém
diz a ninguém. Mas pensam. Muito. A toda a hora. Precisam de pensar na vida
sozinhos por agora. Por agora é disso que precisam, chegar a conclusões
sozinhos.
O
Luís anda triste. Tem saudades do Duarte.
Amanhã
vai a um concerto e sabe que o Duarte vai lá estar. Talvez por isso adie o que
tem para lhe dizer. Talvez até não diga nada. Não quer estragar os preciosos
segundos do encontro.
Não
o quer incomodar. Tem medo de lhe mandar uma mensagem e que não responda. A
última vez disseram coisas que não queriam e agora precisam de um tempo até
elas se dissiparem.
No
dia do concerto arranja-se toma banho, põe perfume. Quer estar bem para o
encontro.
Encontram-se:
-
Olá! Como estás? Tudo bem.
Ninguém
tem coragem de dizer nada (talvez não haja nada para dizer)
Despedem-se
e nada.
Quando
chega à curva dá um murro no muro. Foi a falta de coragem. O medo de ser
abandonado. Prefere estar sozinho. Não sabe como quebrar silêncios. Nunca foi a
bom a criar atmosferas onde os reencontros acontecem. Não sabia se estaria a
forçar.
Passam
dias. Amor silencioso.
A
depressão voltou.
Já
não se importa com o Duarte. Apesar de pensar nele. O medo do incerto
paralisa-o.
IX
Há
um dia que quer ser feliz, diz para si. Pega no telefone e telefona ao Duarte.
Pergunta-lhe se ele quer ir lá a casa jantar. O Duarte diz que sim. Às 21h
chega. Luís abre a porta e dá-lhe um beijo na boca. O gelo quebra-se, dão as
mãos e vão para a sala. Tinham muitas saudades um do outro.
Beijam-se
e fodem. Não dizem uma palavra.
De
manhã, na cama, debaixo dos lençóis brancos conversam muito.
Calmamente
conversam
muito
ouvem-se
falam
do futuro
planos
acertam
tempos
chegam
a concordâncias
discutem
o
salto para a frente parece irreal, mas agora as possibilidades ganham forma, já
são palpáveis, estão a construir o futuro e estão felizes.
Quando
Luís sai à rua, vira para a esquerda em vez da sempre direita.
Cheira,
vê, descobre uma rua nova, não está muito certo da escolha, mas sabe que o novo
sabe bem e encontra todas as possibilidades.