terça-feira, 28 de abril de 2015

Na nuca



Sai uma lágrima por cada olho
deixando um rasto frio e molhado

oiço-as
e vou-me calando

pois encontraram-se
onde mora o teu beijo.







sábado, 25 de abril de 2015

Leio um livro sobre mim



O escritor não sabe
Mas escreveu sobre mim
Antes de me conhecer

Ponho-o de parte
Já sei como acaba.

Decidi hoje não ler mais

terça-feira, 14 de abril de 2015

Hoje fui buscar pão à padaria



subo as escadas duma rua
uma senhora diz
passe passe
passei contrariada

diz à filha:
deixa passar a menina que está com pressa
não não
eu não tenho pressa
eu tenho tempo

continuámos as 3 próximas ao mesmo ritmo

a filha virou à direita
(foi para o trabalho)

e nós para a esquerda
meteu conversa comigo
(não queria ir sozinha)

contou-me a vida dela
a dos pais
a dos irmãos
a dos filhos
a do marido
até eu perceber que ela conhecia a minha avó

disse-lhe quem eu era

quando se despede diz-me:
Só podes ser uma pessoa boa
porque a tua avó era uma pessoa extraordinária.

As lágrimas correram

Tenho a sensação que conheço o mundo inteiro
(tal como a minha avó)
há qualquer coisa que nos liga
uns aos outros
basta procurar um pouco
logo elas vem ao de cima.

quinta-feira, 9 de abril de 2015



Uma luz doce e meiga
emana da tua pele
branca e nua.
Lambo-a, e pedes que a trinque.
Sem aviso um fumo pesado rodeia-te
e deixo de te ver.
Serás sombra de fantasma ou de anjo?
Na minha fantasia tenho sono
e adormeço,
por fim,
com os teus cabelos nos meus.




domingo, 5 de abril de 2015

Quem sou eu em 30 segundos



pássaro esvoaçante
com asas de crocodilo
morde como uma galinha
com voos espampanantes
viaja pelo mundo em busca de fortunas

há-de ficar rico com a loucura que o consome

dança livremente
sem repetir o que foi
é espuma de restos do mar
a rebolar na areia
gaivotas  a uivar
dança cósmica entre amigos

está nas montanhas
fecha os olhos e está lá
ouve as gaivotas
as mesma que ouvia lá
onde quer que vá
as gaivotas lembram-no quem é

Vem voar connosco dizem elas

não posso ir

se eu for não volto

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Amar



Às vezes dá-me uma vontade de escrever
de sofrer de amores desmesurados

o amor é isto
esta irrequietação
um desejo de escrever urgentemente que amo

neste momento amo mais do que há bocado quando não pensava nisso
são pensamentos momentâneos
mas são nestes momentos de pura felicidade que mais sinto amor

quanto mais digo que amo
mais amo
convenço-me disso

a beleza do mundo
a musica, os trompetes
as gaivotas a voar por cima de mim
o silencio de um vento inexistente
o cheiro de uma chuva promissora que se arrasta em chegar

nestes momentos sou deus
nem vou por menos

capaz de tudo
o maior amor de todos

amo todas as criaturas
tudo em mim é perdão

o arrasamento da humanidade contida no prender do meu âmago

porque se solto!
porque se solto!
o que acontece?

posso espreitar
mas não posso ficar muito tempo
neste estado límbico
agora sou amor
aqui só
mas só aqui sentada a escrever
enquanto penso que amo

de repente não preciso de ninguém
e sou livre
de repente sou deus
e não preciso de ninguém
sou feliz sozinha
que bom é ser livre
feliz e deus

que poder ilimitado
que loucura insana
não carrego fardos
leve como pena
ver mais do que via
voo sem cansaço
quando me canso

paro